quarta-feira, 2 de março de 2011

Especuladores da fome fazem preço dos alimentos aumentar

Fonte: Site Carta Maior



Não são apenas más colheitas e mudanças no clima; especuladores também estão por trás dos preços recordes nos alimentos. E são os pobres que pagam por isso. Os mesmos bancos, fundos de investimento de risco e investidores cuja especulação nos mercados financeiros globais causaram a crise das hipotecas de alto risco (sub-prime) são responsáveis por causar as alterações e a inflação no preço dos alimentos. A acusação contra eles é que, ao se aproveitar da desregulamentação dos preços dos mercados de commodities globais, eles estão fazendo bilhões em lucro da especulação sobre a comida e causando miséria ao redor do mundo. O artigo é de John Vidal.

Há pouco menos de três anos, as pessoas da vila de Gumbi, no oestede Malawi, passaram por uma fome inesperada. Não como a de europeus,que pulam uma ou duas refeições, mas aquela profunda e persistente fome que impede o sono e embaralha os sentidos e que acontece quando não se tem comida por semanas. Estranhamente, não houve seca, a causa tradicional da mal nutrição e fome no sul da África, e havia bastante comida nos mercados. Por uma razão não óbvia o preço de alimentos básicos como milho e arroz havia quase dobrado em poucos meses. Não havia também evidências de que os donos de mercados estivessem estocando comida. A mesma história se repetiu em mais de 100 países em desenvolvimento. 

Houve revolta por causa de comida em mais de 20 países e governos tiveram que banir a exportação e subsidiar fortemente os alimentos básicos. A explicação apresentada por especialistas da ONU em alimentos era de que uma “perfeita” conjunção de fatores naturais e humanos tinha se combinado para inflar os preços. Produtores dos EUA, diziam as agências da ONU, tinham disponibilizado milhões de acres de terra para a produção de biocombustíveis; preços de petróleo e fertilizantes tinham subido intensamente; os chineses estavam mudando de uma dieta vegetariana para uma baseada em carne; secas criadas por mudanças no clima estavam afetando grandes áreas de produção. 

A ONU disse que 75 milhões de pessoas se tornaram mal nutridas em função do aumento de preços. Mas uma nova teoria está surgindo entre economistas e mercadores. Os mesmos bancos, fundos de investimento de risco e investidores cuja especulação nos mercados financeiros globais causaram a crise das hipotecas de alto risco (sub-prime) são responsáveis por causar as alterações e a inflação no preço dos alimentos. A acusação contra eles é que, ao se aproveitar da desregulamentação dos preços dos mercados de commodities globais, eles estão fazendo bilhões em lucro da especulação sobre a comida e causando miséria ao redor do mundo. 

Conforme os preços sobem além dos níveis de 2008, fica claro que todos estão agora sendo afetados. Os preços da comida está subindo até 10%por ano no Reino Unido e na Europa. Mais ainda, diz a ONU, os preços deverão subir pelo menos 40% na próxima década. Sempre houve uma modesta, mesmo bem-vinda, especulação nos preços dos alimentos e tradicionalmente funcionava assim. O produtor X se protegia contra o clima e outros riscos vendendo sua produção antes da colheita para o investidor Y. Isso lhe garantia um preço e o permitia planejar o futuro e investir mais, e dava ao investidor Y um lucro também. Num ano ruim, o fazendeiro X tinha um bom retorno. Mas num ano bom, o investidor Y se saía melhor. 

Quando esse processo era controlado e regulado, funcionava bem. O preço da comida que chegava ao prato e do mercado de alimentos mundial ainda era definido por reais forças de oferta e demanda. Mas tudo mudou no meio dos anos 1990. Na época, após um pesado lobby de bancos, fundos de investimento de risco e defensores do "mercado livre" nos EUA e no Reino Unido, as regulamentações no mercado de commodities foram abolidas. Contratos para comprar e vender alimentos foram transformados em “derivativos” que poderiam ser comprados e vendidos por negociantes que não tinham relação alguma com a agricultura. Como resultado, nascia um novo e irreal mercado de “especulação de alimentos”. 

Cacau, sucos de fruta, açúcar, alimentos básicos e café agora são commodities globais, assim como petróleo, ouro e metais. Então, em 2006, veio o desastre das hipotecas podres e bancos e especuladores correram para jogar os seus bilhões de dólares em negócios seguros, alimentos em especial. “Nós notamos isso [especulação de alimentos] pela primeira vez em 2006. Não parecia algo importante então. Mas em 2007, 2008 aumentou rapidamente”, disse Mike Masters, gerente de um fundo no Masters Capital Management, que confirmou em testemunho ao Senado dos EUA em 2008 que a especulação estava inflando o preço mundial dos alimentos. “Quando você olha para os fluxos, se tem uma evidência forte. Eu conheço muitos especuladores e eles confirmaram o que está acontecendo. A maior parte do negócio agora é especulação – eu diria 70 a 80%.” Masters diz que o mercado agora está muito distorcido pelos bancos de investimentos. “Digamos que apareçam notícias sobre colheitas ruins e chuvas em algum lugar. Normalmente os preços vão subir algo em torno de 1 dólar (por bushel). Quando se tem 70-80% de mercado especulativo, sobe 2 a 3 dólares para levar em conta os custos extras. Cria volatilidade. Vai acabar mal como todas as bolhas de Wall Street. Vai estourar.” 

O mercado especulativo é realmente vasto, concorda Hilda Ochoa-Brillembourg, presidente do Strategic Investment Group de Nova York. Ela estima que a demanda especulativa para o mercado agrícola de futuros tenha aumentado entre 40 e 80% desde 2008. Mas a especulação não está apenas em alimentos básicos. No ano passado, o fundo Armajaro, de Londres, comprou 240 mil toneladas – mais de 7% do mercado mundial de cacau – ajudando a elevar o preço do chocolate ao seu mais alto valor em 33 anos. Enquanto isso, o preço do café pulou 20% em apenas três dias, resultado direto de aposta de especuladores na quebra do preço do café. 

Olivier de Schutter, Relator da ONU para o Direito à Alimentação, não tem dúvidas que especuladores estão por trás do aumento de preços. “Os preços do trigo, do milho e do arroz tem aumentado de modo significante, mas isso não está ligado a estoques ou colheitas ruins, mas sim a negociantes reagindo a informações e especulações do mercado”, ele diz. “As pessoas estão morrendo de fome enquanto os bancos estão se matando para investir em comida”, diz Deborah Doane, diretora do Movimento Global de Desenvolvimento de Londres. 

A FAO, órgão da ONU para agricultura, se mantém diplomaticamente evasiva, dizendo, em junho, que: “Fora mudanças reais em oferta e procura em alguns commodities, o aumento dos preços pode também ter sido amplificado pela especulação no mercado de futuros”. A [visão da] ONU tem o apoio de Ann Berg, uma das mais experientes negociantes do mercado de futuros. Ela argumenta que diferenciar commodities dos mercados de futuro e os relacionados com investimento sem agricultura é impossível. “Não existe maneira de saber exatamente [o que está acontecendo]. Tivemos a bolha das casas e o não-pagamento dos créditos. O mercado de commodities é outro campo lucrativo [onde] os mercados investem. É uma questão sensível. [Alguns] países compram direto dos mercados. Como diz um amigo meu. “O que para um homem pobre é um problema, para o rico é um investimento livre de riscos”. 

Tradução: Wilson Sobrinho

Internet e infidelidade

Texto sugerido e enviado pela Andressa Maltaca do INTERCEF -  Instituto de Terapia e Centro de Estudos da Família de Curitiba, a quem agradeço pela colaboração.



INTERNET E INFIDELIDADE

A Internet apresenta novas possibilidades de relacionamento. Ela permite o encontro e a descoberta no anonimato. Quando as pessoas estão anônimas, comportam-se em geral de forma mais livre e mais despojada de preconceitos e máscaras. Gostam de se expor deste modo. Podem fantasiar que são melhores do que são, e podem despir-se de inibições.
Encontrar pessoas pela Internet e relacionar-se "intimamente" com elas traz para dentro de casa uma possibilidade nunca antes vivida. Casais que vivem frustrações no casamento encontram facilmente a saída rápida e segura para expressar suas fantasias e desejos, protegidos pela distância e anonimato. A tela e o teclado tornam-se amigos concretos, o computador passa a ser o aliado. Substitui-se assim a ameaça do relacionamento real, e ele pode ser vivido sem riscos.
É o encontro pela Internet considerado infidelidade? Os adeptos dizem que não, pois se defendem com o fato de o relacionamento não envolver sexo real. Porém, se alguém é casado e investe energia, tempo, fantasia e romantismo em outra pessoa, está sendo fiel?
A fidelidade e a infidelidade dependem do conceito que o casal tem delas, e do pacto de confiança que estabelecem entre si. Para alguns casais, infidelidade não é encontrar-se com outra pessoa, e sim apaixonar-se por ela. Para outros casais, o pacto inclui que eles viverão um com o outro, e se tiverem problemas terão que enfrentá-los dentro do casamento. Vale a pena investigar o que cada um vai buscar no relacionamento virtual, e porque não encontra isto no mundo real, dentro de seu casamento.
O que as pessoas buscam nos encontros pela Internet?
Romance, namoro, aceitação, fantasia, ilusão, anonimato, ausência de censura, partilha de sentimentos...
A internet realiza alguns desejos incompatíveis com a vida cotidiana. Não há compromisso com a verdade. Ela dá vida aos desejos reprimidos. Cria um mundo  de facilidades.
A Internet mudou o flerte. O flerte era ponto de partida para a aproximação de um casal. Pela Internet é a palavra que se torna a arma mais poderosa no jogo da sedução. Há pessoas que dizem que o erotismo on line não traz novidade, que se trata de mais um estímulo, como as revistas pornográficas ou um vídeo erótico. Por mais que um internauta engate em conversas em tempo real, fisicamente ele tem de se satisfazer sozinho. A diferença é que do outro lado alguém interage com ele e alimenta suas fantasias, e é esta interatividade anônima e a imprevisibilidade "protegida" que dela decorre que tornam este contato tão excitante.
O romance virtual é uma imitação quase perfeita do romance da vida real. O amante virtual, como não tem rosto nem identidade, é virtualmente perfeito, pois depende da imaginação de cada um. Mas se o relacionamento pela internet traz menos riscos, a vida real é mais difícil de ser encarada. Quando surge o desinteresse pelo parceiro, na vida real, é difícil romper. Na internet, quando surge o desinteresse, é só deletar o parceiro!
O anonimato que se estabelece na Internet permite que as pessoas se soltem mais, especialmente as tímidas e inseguras. Elas podem criar uma imagem de si que é a ideal, aquela imagem que elas gostariam de ter. Elas podem escolher o que querem ser, e mostrar-se ao outro do modo melhor que escolheram para si. Assim, sentem-se artificialmente seguras, e podem anonimamente revelar-se nos seus desejos e fantasias, com mais coragem e desinibição. A Internet transformou-se no maior serviço de encontros de todos os tempos, segundo o psiquiatra Alvin Cooper.
Protegidas pelo monitor, muitas pessoas relatam falar a verdade sobre o que realmente importa, sobre seus gostos, sensibilidade, temores. Elas podem dar-se ao luxo inclusive de relatar coisas menores, que aos olhos do outro se tornam importantes.
A tela e o teclado transformam-se no corpo da outra pessoa. O amante do outro lado da tela tem uma identidade questionável, pois ele escolhe também uma imagem que quer mostrar à outra parte envolvida. Não se sabe de fato se ele é o que diz ser, nem quem ele diz ser. Será que ele existe ou é uma invenção? Ele é na verdade um amante desconhecido.
Quando a pessoa tecla, tem a sensação de poder partilhar seus sentimentos. Na vida real, quando ambos estão frente à frente, este contato íntimo muitas vezes não se dá, pois cada um pode estar sintonizado em coisas diferentes no momento, ou porque o casal não tem a intimidade necessária para poder se expor nem a afinidade para compreender os sentimentos do outro. A intimidade é uma condição difícil de estabelecer para alguns casais, e falar de si para o outro nem sempre é possível. Falar de si atrás da tela é mais protegido, e isto explica que muitas pessoas se sintam à vontade na Internet para contar coisas íntimas a desconhecidos.
No mundo concreto, as pessoas se aproximam inicialmente por atributos superificiais diversos, e depois se descobrem mais profundamente à medida que o relacionamento evolui. No mundo virtual, elas se sentem atraídas pelas qualidades que vêem no outro, e só depois terão a oportunidade de se descobrir fisicamente. A questão é se as qualidades são reais. Às vezes são, e há vários relatos de pessoas que se aproximaram de forma bem sucedida e que estabeleceram relacionamentos duradouros iniciados on-line. Há bem menos relatos, porém, de que relacionamentos fruto da infidelidade virtual tenham tido o mesmo caminho.
Uma das coisas que mais renovam a vida é o acaso. Na internet os encontros são casuais, começam sem que se possa planejar com quem ocorrerá o encontro. O acaso terá um papel fundamental, e isto é estimulante para todo mundo.
Definir que a Internet é prejudicial para os que buscam nela uma forma de relacionamento não abrange a motivação das pessoas que a usam. Há cientistas que afirmam que esta prática pode ser saudável.  Usuários pesados, que praticamente só têm este tipo de contato, por outro lado, são pessoas que temem lidar com o sentimento de rejeição ou temem trocar afeto, enfim, têm inseguranças que os impedem de enfrentar o mundo dos relacionamentos.
Qual é o papel do relacionamento virtual para um casal? O que o casal ou um cônjuge busca na Internet?
Sexo protegido, aventura, apimentar a vida sexual monótona, paixão, adrenalina, intimidade perdida, extravasar desejos reprimidos, refúgio? Seja o que for que o parceiro busca, ele está optando por buscar resolver fora do casamento algo que não está encontrando no casamento.
Isto justifica sua decisão?
Todo o relacionamento tem um decréscimo de paixão e intensidade com o passar do tempo, e estes sentimentos são substituídos por outros decorrentes da convivência.
Se não se encontra algo no casamento, há vários caminhos a tomar: abordar a questão com o cônjuge, buscar aconselhamento com profissional, conversar com outras pessoas conhecidas do casal, que podem ter vivido algo semelhante e trocar experiências, ler, obter informações. Enfim, recorrer a outro relacionamento como solução é uma decisão tomada por quem o faz; a pessoa tem que ter consciência de que a responsabilidade sobre esta decisão é sua, e das consequências que isto traz ao relacionamento.
Fantasias sempre fizeram parte das relações matrimoniais. Mais cedo ou mais tarde um ou ambos sente saudade de emoções que já não sente. A rotina abre as portas para o tédio. Fantasiar é uma compensação para isto. É natural e não causa divórcio. Teclar com um desconhecido não é o mesmo que fantasiar, pois existe interação com outra pessoa. Estabelece-se uma relação entre ambos. Existe do outro lado uma pessoa que sente, responde, que conta o que comeu no almoço, que malicia. Ela é um amante em potencial.
Quando um cônjuge não consegue conversar com o parceiro sobre assuntos que o tocam, mas consegue com outro fora do casamento, cuja companhia ele aprecia, e tem que guardar segredo sobre isto, se afasta cada vez mais do seu parceiro. Pois aquilo que conta ao outro, não conta ao cônjuge.
E o relacionamento de fora, que parecia proteger o casamento, contribui para aumentar a distância.
Os enamorados que contam a verdade um para o outro, buscam o prazer da intimidade. Quando se contam mentiras ou se omitem experiências de intimidade com outras pessoas, tenta-se evitar o castigo ou a dor. O resultado é que se perde a espontaneidade, e a pessoa tem que censurar-se cada vez mais sobre o que vai falar com o outro, para não se entregar. E tem que começar a mentir para esconder o segredo. E isto a afasta do cônjuge. Aquele que mente não pode falar do fundo do seu coração. Ele se separa então não só do parceiro, mas também de si mesmo.
Há relacionamentos que, ao contrário da falta de proximidade, são tão próximos, tão grudados, tão um para o outro, que falta ar na relação. Individualmente, cada um necessita espaço para ter sua vida independente, porém não pode falar com o cônjuge sobre esta necessidade, porque o outro pode pensar que ele está se afastando.
Ambos precisam de um pouco de privacidade, aquela que é saudável para cada um, mas não conseguem negociar esta privacidade. Temem que ao ter privacidade, o outro poderá ficar solto e trair. Pois é exatamente o que ocorre. Para ter a ilusão de privacidade, um dos parceiros começa a se corresponder com algum desconhecido, e sente assim que domina uma pequena parte de sua vida. É como se, ao ter um relacionamento secreto, a pessoa tivesse a liberdade que ela necessita. O casal fica grudado para não trair, e acaba traindo porque está excessivamente grudado. Está claro que o cônjuge não quer um relacionamento real, por isto busca a internet.
Se o casal vai ou não considerar como infidelidade o relacionamento virtual, como já foi dito, depende de sua concepção do que é infidelidade. Há casais que afirmam que entrar numa sala de bate-papo sem interesse de continuidade não é infidelidade, e sim somente curiosidade. Mas a partir do momento que se estabelece uma conversa privada, repetida, com encontros marcados para teclar, o relacionamento virtual já se configura como encontro, e isto é para eles infidelidade.
A infidelidade é a quebra de um pacto de confiança. O pacto será diferente de casal para casal, mas ele existe, embora nem sempre seja claro. O que é infidelidade também pode variar de pessoa para pessoa, e algumas consideram que só há infidelidade quando há envolvimento sexual.
Seja qual for a concepção que o casal tem sobre o que é ser infiel, a busca de aliados fora do relacionamento encobre os problemas do casal, e adia sua resolução. Alivia temporariamente a insatisfação, mas cria um afastamento maior. O medo da separação faz com que o casal afastado não olhe para si. Porém, em algum momento, um dos dois encontra o que quer e pode provocar o rompimento.
A infidelidade pode representar a busca do novo. Mas se o novo não puder ser criado e recriado dentro do casamento, o cônjuge estará se condenando a repetir a experiência da busca extraconjugal continuamente. Neste caso, seu casamento sofre uma perda de intimidade cada vez maior, e fica vulnerável.
Se para os cônjuges o relacionamento for algo a preservar, se for um tesouro, ainda que esquecido de seu brilho, a busca de aliados fora do casamento contribuirá para torná-lo mais opaco ainda. Mesmo que haja pessoas que encontrem temporariamente a emoção no relacionamento extraconjugal, e que inclusive afirmem que o relacionamento de fora traz melhoras ao relacionamento oficial, a porta que se abre oferece uma saída para ser usada sempre que o relacionamento não corresponder ao que desejam. Elas correm o risco de esquecer que é delas também que depende que as jóias do tesouro sejam redescobertas, polidas e valorizadas.
O que fazer quando o cônjuge trai on-line?
A situação é delicada, pois é como se a traição estivesse ocorrendo dentro de casa.
É preciso conversar, e examinar as razões pelas quais a pessoa resolveu buscar o relacionamento virtual. Talvez o casal tenha pela primeira vez, depois de muito tempo, a oportunidade de falar francamente sobre si e sobre o relacionamento. Por mais que doa, é uma forma de olhar corajosamente para o casamento. Uma crise como a que decorre da revelação da infidelidade, seja ela virtual ou real, apresenta a oportunidade de cada um ser honesto com o outro e consigo mesmo. E isto começa a recriar a intimidade, a aproximação.
Por outro lado, a quebra de confiança é difícil de superar. É intolerável pensar que o computador está ao alcance da mão do parceiro o tempo todo, e que ele sempre pode estabelecer contato com o amante virtual, a qualquer hora do dia e da noite.
O cônjuge infiel precisa examinar o que quer do casamento, e o que quer para si mesmo. Ele pode estar passando por uma crise pessoal de perda de autoestima, e ter encontrado no relacionamento virtual uma fonte extra de autoestima.
Ele terá que reconstruir a confiança que pôs a perder quando abriu a porta do casamento. Precisará pedir perdão genuinamente, e desenvolver atitudes confiáveis e transparentes, para que evite ser mal interpretado. Uma das maiores dificuldades quando se perde a confiança no casamento, é que aquele que desconfia não sabe o que fazer para voltar a confiar, e aquele que quer recuperar a confiança não sabe como convencer o outro que voltou a ser confiável.
O restabelecimento da confiança vem com o tempo e com atitudes transparentes, sérias e sólidas. Transparência significa abrir os e-mails para o cônjuge ler, eliminar os endereços escondidos, mas também e principalmente, significa reabrir-se para a intimidade no relacionamento.
O casal que necessita de individualidade precisa revisar como entende a individualidade e tem que criar espaços de privacidade que respeitem as necessidades de cada um.
O relacionamento pode crescer com a crise criada pela infidelidade virtual. Afinal, se a pessoa quisesse de fato trair, iria fazê-lo pelo computador?
"A maioria das pessoas se casa acreditando em um mito, de que o casamento é uma linda caixa cheia das coisas que elas esperaram a vida inteira: companheirismo, satisfação sexual, intimidade, amizade. A verdade é que o casamento, no começo, é uma caixa vazia. Você deve colocar algumas coisas dentro dela, antes que possa tirar. Não há amor no casamento, o amor está nas pessoas e as pessoas colocam o amor no casamento. Não há romance no casamento, as pessoas têm que colocá-lo no casamento. Um casal deve aprender a arte e formar o hábito de dar, amar e servir - manter a caixa cheia. Se você tirar mais do que puser, a caixa se esvaziará." (J. Allen Petersen).
CRP – 08/0501
Coordenação do Instituto de Terapia e Centro de Estudos da Família - INTERCEF


sábado, 26 de fevereiro de 2011

Mapa da violência: Alagoas é primeiro em ranking nacional

O Ministério da Justiça divulgou no último dia 23 de fevereiro o relatório Mapa da Violência, Alagoas exibe a triste média 60,3 homicídios por cada cem mil habitantes. Abaixo tabela.

Proletários e a divisão do trabalho na grande indústria


Por: Albani de Barros

Sem o entendimento de como Marx descrevia a distribuição dos trabalhadores na grande indústria, o conceito que ele formulou sobre o trabalhador coletivo perde o sentido lógico. Isto não ocorre porque ele teria sido impreciso ao afirmar que para ser produtivo não há a necessidade de manipular diretamente o objeto (MARX, 1996), mas porque a interpretação de suas palavras é feita sem buscar em sua obra ao que ele objetivamente está se referindo. Se a análise da questão ficar restrita e isolada somente à frase que identifica que os membros que participam do trabalho coletivo “se encontram mais perto ou mais longe da manipulação do objeto de trabalho” (Ibidem, p. 137), estará se incorrendo num lamentável equívoco.
O texto de O Capital tem um absoluto rigor lógico, exatamente por ser meticulosamente preciso é que nenhuma parte dele pode ser ignorada. Utilizando um raciocínio “despedaçado” do texto de Marx, pode-se considerar até que, como o trabalhador intelectual não está próximo do objeto a ser manipulado, mas participa do processo como um todo da produção, então ele estaria desempenhando uma atividade que também é trabalho. Marx já havia identificado que o trabalho manual estaria cindido com o intelectual, ora, se foram separados e transformados em inimigos, como poderiam ter a mesma função? A resposta a essa questão é simples: o trabalhador intelectual não cumpre a mesma função do trabalhador manual, mesmo com a introdução da maquinaria moderna. Para o entendimento dessa questão é necessário compreender quem seriam esses trabalhadores que Marx descreve em O Capital  e qual função esses desempenhavam na produção. 
Marx (1996) afirma que é bastante ser órgão do trabalhador coletivo para trabalhar produtivamente, ele está salientando como ocorria a produção na grande indústria. Com o sistema de diversas máquinas instaladas na grande indústria, uma nova configuração na produção surgiu. Vejamos a descrição de nosso autor alemão no capítulo XIII, ao comentar a maquinaria e a grande indústria, bem como a necessária divisão do trabalho decorrente desse aspecto:

À medida que na fábrica automática ressurge a divisão de trabalho, ela é, antes de tudo, distribuição dos trabalhadores entre as máquinas especializadas e de massas de trabalhadores [...]. O grupo articulado da manufatura é substituído pela conexão do operário principal com alguns poucos auxiliares. (Ibidem, p. 53).


Quando Marx analisa a grande indústria já estabelecida na Inglaterra no século XIX e afirma que para “trabalhar produtivamente” basta ser pertencente ao grupo por ele denominado de trabalhador coletivo, ele se refere à forma como a produção ocorria no complexo da maquinaria, naquele estágio de desenvolvimento das forças produtivas. Ao analisar a produção mecanizada, o operário que manipula o objeto a ser transformado (natureza ou matéria-prima) recebe agora a colaboração de outros trabalhadores; são esses que podem estar mais perto ou distantes desta manipulação, mantendo o caráter produtivo (Ibidem) original do trabalho.
E ele diferencia os trabalhadores que diretamente manipulam o objeto e dos outros que o auxiliam:

A distinção essencial é entre trabalhadores que efetivamente estão ocupados com as máquinas-ferramentas (adicionam-se a estes alguns trabalhadores para vigiar ou então alimentar a máquina-motriz) e meros ajudantes (quase exclusivamente crianças) desses trabalhadores de máquinas. Entre os ajudantes incluem-se mais ou menos todos os feeders (que apenas suprem as máquinas com material de trabalho). (Ibidem, p. 53).

Marx escreve que alguns trabalhadores manipulam o objeto, ocupando atividades diretamente com a máquina-ferramenta.[1] Quanto a estes primeiros, não parece haver grandes questões a serem tratadas, já que eles são os responsáveis diretos pela conversão da matéria. Alguns outros alimentam a máquina–motriz[2] ou a vigiam, conferindo o momento certo de reabastecê-las. Estes trabalhadores colocam, por exemplo, o carvão para ser consumido pela máquina-motriz, “alimentando-a” com o combustível necessário para que gere a energia a ser distribuída com as máquinas menores (máquinas-ferramentas). Além da tarefa de suprir, esse grupo de trabalhadores vigia esta máquina, não o trabalhador, ou seja, este grupo de indivíduos colocados na produção não está controlando outros operários, mas atento ao maquinário.  Podemos considerar que esses trabalhadores estão mais distantes da manipulação; o motivo é que o equipamento com o qual eles trabalham é a máquina-motriz, responsável por fornecer energia às máquinas menores (Ibidem). No espaço físico da fábrica, esta máquina encontra-se alocada distante do local onde o objeto é manipulado, e os trabalhadores que nela atuam mantêm o caráter produtivo original do trabalho.
Além destes, há outro grupo auxiliando os trabalhadores que manipulam o objeto; são os ajudantes e os feeders. A tarefa desses é suprir as máquinas-ferramentas com o material de trabalho, isto é, trazer para junto deste equipamento o objeto natural ou a matéria-prima a ser transformada, de forma a que o trabalhador que está diretamente manipulando o objeto não interrompa a produção para ir buscar os insumos necessários. Portanto, a tarefa desses ajudantes é principalmente transportar estes insumos para perto da máquina-ferramenta; sua função tem um caráter pertencente ao trabalho manual, visto que, para que ocorra a conversão da natureza, é necessário que haja o transporte do objeto. Dessa forma, este outro grupo de trabalhadores está em alguns momentos perto da manipulação, quando, por exemplo, depositam a matéria-prima a ser trabalhada próximo à máquina-ferramenta; em outros instantes ficam mais distantes, quando vão buscar esses materiais. Nas duas situações, os ajudantes e os feeders também cumprem uma função produtiva no mesmo patamar dos trabalhadores que diretamente manipulam o objeto.
Nos dois casos analisados, tanto no grupo de trabalhadores que “alimentam e vigiam” a máquina-motriz, como no grupo de ajudantes que suprem as máquinas-ferramentas com material de trabalho, a função desses operários não é de controlar o trabalhador que está manipulando o objeto, mas de auxílio a esta conversão. Mesmo não atuando diretamente nessa transformação, como aqueles que efetivamente manipulam o objeto na máquina-ferramenta, a função exercida por esses trabalhadores é de pertencimento ao trabalho manual. 
Também existe outro grupo de trabalhadores que, apesar de também manter um tipo de vínculo com a produção, diferentemente desses anteriormente analisados, vão cumprir a função de controle sobre o trabalho manual. Trata-se do trabalho intelectual, que está presente no processo de produção. Percebendo tal situação, Marx argumenta que: “A determinação original, acima, de trabalho produtivo, derivada da própria natureza da produção material, permanece sempre verdadeira para o trabalhador coletivo, considerado como coletividade. Mas ela já não é válida para cada um de seus membros, tomados isoladamente” (Ibidem, p. 137–138). Como o trabalho não é mais puramente individual, mas de um pessoal combinado, quando é analisado o conjunto, é possível identificar o trabalhador coletivo como o que permanece com o caráter produtivo; entretanto, analisando estes indivíduos isoladamente, não. Os trabalhadores que manipulam o objeto, os que alimentam a máquina-motriz, os ajudantes e feeders que suprem com matéria-prima a máquina-ferramenta são os trabalhadores coletivos. Contudo:

Ao lado dessas classes principais, surge um pessoal numericamente insignificante que se ocupa com o controle do conjunto da maquinaria e com sua constante reparação, como engenheiros, mecânicos, marceneiros etc. É uma classe mais elevada de trabalhadores, em parte com formação científica, em parte artesanal, externa ao círculo de operários de fábrica e só agregada a eles. (Ibidem, p. 54).

Sobre esse último grupo citado por Marx, sua função não é de colaboração com os trabalhadores manuais anteriormente descritos; eles são externos ao círculo do proletariado (Ibidem), contratados para cumprir determinações oriundas da burguesia. A tarefa essencial destes é contribuir com o capitalista que os contratou para extrair dos trabalhadores manuais o máximo[3] de suas forças, a maior quantidade possível de sobretrabalho. O engenheiro e o mecânico participaram da concepção das máquinas e quando a idealizaram, tiveram a preocupação de conceber um equipamento que fosse capaz de obter o máximo possível de produtividade. Sua tarefa consistiu em possibilitar técnica e operacionalmente que o trabalho morto das máquinas sugasse tanto quanto possível fossem as forças do trabalho vivo (Ibidem); sua presença na produção apenas reforça o caráter hostil da separação entre a “mão e a cabeça”.
Tomando como referencial a teoria de Marx, os trabalhadores intelectuais não produzem a riqueza material, eles a organizam em função de determinações oriundas da classe proprietária dos meios de produção; portanto formam uma unidade de inteligência estranha e oponente ao trabalhador manual. O fato de serem necessários na organização da produção capitalista, não significa que também sejam indispensáveis num outro tipo de produção. 
Numa sociedade liberta do trabalho alienado, os trabalhadores manuais permaneceriam sendo rigorosamente imprescindíveis e poderiam ter sua organização baseada não no controle exercido pelo trabalho intelectual, mas na qualidade de produtores associados. Este tipo de trabalho nada tem haver com o trabalho cooperativista que ocorre no interior do capitalismo, refere-se ao processo onde os trabalhadores controlam de forma coletiva, livre e consciente, a produção e a distribuição da riqueza (TONET, 2007).


MARX, Karl. O Capital – Crítica da Economia Política. Livro primeiro, tomo 2. São Paulo: Nova Cultural, 1996.

Ivo Tonet. Educação contra o capital. Maceió: Edufal, 2007.



[1]    A máquina-ferramenta é “um mecanismo que, ao ser-lhe transmitido o movimento correspondente, executa com suas ferramentas as mesmas operações que o trabalhador executava antes com ferramentas semelhantes” (MARX, 1996, p. 9). É na máquina-ferramenta que o objeto é manipulado pelo operário.
[2]    Marx também identifica a máquina-motriz como um equipamento que “atua como força motora de todo o mecanismo. Ela produz a sua própria força motriz, como a máquina a vapor, a máquina calórica, a máquina eletromagnética etc., ou recebe o impulso de uma força natural já pronta fora dela, como a roda-d’água, o da queda-d’água, as pás do moinho, o do vento etc.” (Ibidem, p. 9). Trata-se do equipamento que fornece energia e que coordena o funcionamento das outras máquinas menores, chamadas de máquinas-ferramentas. Isto ocorre através de mecanismos de “transmissão, composto de volantes, eixos, rodas dentadas, rodas-piões, barras, cabos, correias, dispositivos intermediários e caixas de mudanças das mais variadas espécies, regula o movimento, modifica, onde necessário, sua forma, por exemplo, de perpendicular em circular, o distribui e transmite para a máquina-ferramenta” (Ibidem, p. 9). É a máquina-motriz que supre com energia as máquinas-ferramentas operadas pelos trabalhadores que manipulam o objeto. Esse é o equipamento que é “alimentado” e vigiado por alguns trabalhadores, que igualmente aos operários que manipulam o objeto, também participam do grupo denominado por Marx de trabalhador coletivo.
[3]    A atividade de conceber uma máquina para ser utilizada na produção capitalista é uma das tarefas do trabalho intelectual. Este trabalhador assalariado idealiza e projeta instrumentos e equipamentos cuja finalidade é conseguir extrair o máximo de sobretrabalho, pois a determinação de suas funções é oriunda da mesma lógica de seu patrão.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Crise estrutural do capital

Por István Mészáros


Vivemos na era de uma crise histórica sem precedentes. Sua severidade pode ser medida pelo fato de que não estamos frente a uma crise cíclica do capitalismo mais ou menos extensa, como as vividas no passado, mas a uma crise estrutural, profunda, do próprio sistema do capital. Como tal, esta crise afeta — pela primeira vez em toda a história — o conjunto da humanidade, exigindo, para esta sobreviver, algumas mudanças fundamentais na maneira pela qual o metabolismo social é controlado.


Os elementos constitutivos do sistema do capital (como o capital monetário e mercantil, bem como a originária e esporádica produção de mercadorias) remontam a milhares de anos na história. Entretanto, durante a maioria desses milhares de anos, eles permaneceram como partes subordinadas de sistemas específicos de controle do metabolismo social que prevaleceram historicamente em seu tempo, incluindo os modos de produção e distribuição escravista e feudal. Somente nos últimos séculos, sob a forma do capitalismo burguês, pôde o capital garantir sua dominação como um “sistema social” global. Para citar Marx: “é preciso ter em mente que as novas forças de produção e relações de produção não se desenvolvem a partir do nada, não caem do céu, nem das entranhas da Idéia que se põe a si própria; e sim no interior e em antítese ao desenvolvimento existente da produção e das relações de propriedade tradicionais herdadas. Se no sistema burguês acabado cada relação econômica pressupõe outra sob a forma econômica-burguesa, e assim cada elemento posto é ao mesmo tempo pressuposto, tal é o caso em todo sistema orgânico. Este próprio sistema orgânico, enquanto totalidade, tem seus pressupostos, e seu desenvolvimento, até alcançar a totalidade plena, consiste, precisamente, na subordinação de todos os elementos da sociedade a si próprio, ou na criação, a partir dele, dos órgãos que ainda lhe fazem falta; desta maneira chega a ser historicamente uma totalidade.”[2]
Dessa forma, desvinculando seus antigos componentes orgânicos dos elos dos sistemas orgânicos precedentes e demolindo as barreiras que impediam o desenvolvimento de alguns novos componentes vitais,[3] o capital, como um sistema orgânico global, garante sua dominação, nos últimos três séculos, como produção generalizada de mercadorias. Através da redução e degradação dos seres humanos ao status de meros “custos de produção” como “força de trabalho necessária”, o capital pode tratar o trabalho vivo homogêneo como nada mais do que uma “mercadoria comercializável”, da mesma forma que qualquer outra, sujeitando-a às determinações desumanizadoras da compulsão econômica.
As formas precedentes de intercâmbio produtivo entre os seres humanos e com a natureza eram, em seu conjunto, orientadas pela produção para o uso, com um amplo grau de auto-suficiência como determinação sistemática. Isso lhes impôs uma grande vulnerabilidade frente aos flagrantemente diferentes princípios de reprodução do capital já operativos, mesmo que inicialmente em uma escala muito pequena, nas fronteiras dos antigos sistemas. Pois nenhum dos elementos constitutivos do sistema orgânico do capital que se manifestava dinamicamente necessitou alguma vez ou foi capaz de, confinar a si próprio às restrições estruturais da auto-suficiência. O capital, como um sistema de controle do metabolismo social pôde emergir e triunfar sobre seus antecedentes históricos abandonando todas as considerações às necessidades humanas como ligadas às limitações dos “valores de uso” não quantificáveis, sobrepondo a estes últimos — como o pré-requisito absoluto de sua legitimação para tornarem-se objetivos de produção aceitáveis — o imperativo fetichizado do “valor de troca” quantificável e sempre expansível. É desta maneira que surgiu a forma historicamente específica do sistema capitalista, sua versão capitalista burguesa. Ela teve de adotar o irresistível modo econômico de extração de sobretrabalho, como mais-valia estritamente quantificável — em contraste com a pré-capitalista e a pós-capitalista de tipo soviético, formas basicamente políticas de controlar a extração de sobretrabalho —, de longe, o modo mais dinâmico de realizar, a seu tempo, o imperativo da expansão do sistema vitorioso. Além do mais, graças à perversa circularidade do sistema orgânico totalmente completo do capital — no qual “cada relação econômica pressupõe outra sob a forma econômica-burguesa” e “cada elemento posto é ao mesmo tempo pressuposto” — o mundo do capital reivindica sua condição de eterna e indestrutível “gaiola de ferro”, da qual nenhuma escapatória pode ou deve ser contemplada.
Entretanto, a absoluta necessidade de atingir de maneira eficaz os requisitos da irreprimível expansão — o segredo do irresistível avanço do capital — trouxe consigo, também, uma intransponível limitação histórica. Não apenas para a específica forma sócio-histórica do capitalismo burguês, mas, como um todo, para a viabilidade do sistema do capitalem geral. Pois este sistema de controle do metabolismo social, teve que poder impor sobre a sociedade sua lógica expansionista cruel e fundamentalmente irracional, independentemente do caráter devastador de suas conseqüências; ou teve que adotar algumas restrições racionais, que, diretamente, contradiziam suas mais profundas determinações como um sistema expansionista incontrolável. O século XX presenciou muitas tentativas mal sucedidas que almejavam a superação das limitações sistêmicas do capital, do keynesianismo ao Estado intervencionista de tipo soviético, juntamente com os conflitos militares e políticos que eles provocaram. Tudo o que aquelas tentativas conseguiram foi somente a “hibridização” do sistema do capital, comparado a sua forma econômica clássica (com implicações extremamente problemáticas para o futuro), mas não soluções estruturais viáveis.
De fato, é extremamente significativo a este respeito — e apesar do triunfalismo que enalteceu, em anos recentes, as virtudes míticas de uma idealizada “sociedade de mercado” (sem mencionar a utilização propagandística apologética do conceito de um “mercado social” completamente fictício) e o “fim da história” sob a hegemonia, livre de ameaças, dos princípios do capitalismo liberal —, que o sistema do capital não pôde se completar como um sistema global em sua forma propriamente capitalista; isto é, fazendo prevalecer universalmente o irresistível modo econômico de extração e apropriação de sobretrabalho na forma de mais-valia. O capital, no século XX, foi forçado a responder às crises cada vez mais extensas (que trouxeram consigo duas guerras mundiais, antes impensáveis) aceitando a “hibridização” — sob a forma de uma sempre crescente intromissão do Estado no processo sócio-econômico de reprodução) como um modo de superar suas dificuldades, ignorando os perigos que a adoção deste remédio traz, a longo prazo, para a viabilidade do sistema. Caracteristicamente, tentativas de retroceder no tempo (até mesmo mais atrás do que a era de um Adam Smith grosseiramente mal representado) são proeminentes entre os defensores acríticos do sistema do capital. Desse modo, os representantes da “Direita Radical” continuam a fantasiar sobre “o recuo das fronteiras do Estado”, enquanto na realidade o oposto é claramente observável, devido à incapacidade do sistema para garantir a expansão do capital na escala requerida sem a administração, pelo Estado, de doses sempre maiores de “ajuda externa”, de uma maneira ou outra.
O capitalismo pode ter conseguido o controle na antiga União Soviética e no Leste europeu, mas é extremamente equivocado descrever o estado atual do mundo como dominado de maneira bem sucedida pelo capitalismo, apesar de estar, certamente, sob a dominação do capital. Na China, por exemplo, o capitalismo somente esta estabelecido, eficazmente, em “enclaves” costeiros, deixando a esmagadora maioria da população (isto é, bem mais de um bilhão de pessoas) fora de seus marcos. E mesmo nessas áreas limitadas da China, nas quais prevalecem os princípios capitalistas, a extração econômica do sobretrabalho precisa ser sustentada através de fortes componentes políticos, mantendo o custo do trabalho artificialmente baixo. A Índia — outro país com uma população imensa —, de maneira similar, encontra-se apenas parcialmente sob a administração bem sucedida do metabolismo sócio-econômico regulado de modo capitalista, deixando, até agora, a esmagadora maioria da população em uma situação bem diferente e difícil. [4] Mesmo na antiga União Soviética, seria bastante impreciso falar sobre a bem sucedida restauração completa do capitalismo, apesar da total dedicação dos organismos políticos dominantes a esta tarefa durante, pelo menos, os últimos doze anos. Alem do mais, a fracassada “modernização” do assim chamado “terceiro mundo”, em conformidade com as prescrições difundidas por décadas pelos países “capitalistas avançados”, destaca o fato de que um grande número de pessoas — não apenas na Ásia, como também na África e América Latina — ficou fora da terra, por muito tempo prometida, da prosperidade capitalista liberal. Dessa forma, o capital pode conseguir adaptar-se às pressões emanadas do fim de sua “ascendência histórica” somente retrocedendo atrás de sua própria fase progressiva de desenvolvimento e abandonando completamente o projeto capitalista liberal, apesar de toda mistificação ideológica auto-justificatória em contrário. É por isso que hoje se tornou mais óbvio do que nunca que o alvo da transformação socialista não pode ser somente o capitalismo, se quiser um sucesso duradouro; deve ser o próprio sistema do capital.
Esse sistema, em todas as suas formas capitalistas ou pós-capitalistas tem (e deve ter) sua expansão orientada e dirigida pela acumulação.[5] Naturalmente, o que está em questão a este respeito não é um processo delineado pela crescente satisfação das necessidades humanas. Mais exatamente, é a expansão do capital como um fim em si, servindo à preservação de um sistema que não poderia sobreviver sem constantemente afirmar seu poder como um modo de reprodução ampliado. O sistema do capital é essencialmente antagônico devido à estrutura hierárquica de subordinação do trabalho ao capital, o qual usurpa totalmente — e deve sempre usurpar — o poder de tomar decisões. Este antagonismo estrutural prevalece em todo lugar, do menor “microcosmo” constitutivo ao “macrocosmo” abarcando as relações e estruturas reprodutivas mais abrangentes. E, precisamente porque o antagonismo é estrutural, o sistema do capital é — e sempre deverá permanecer assim — irreformável eincontrolável. A falência histórica do reformismo social-democrata fornece um testemunho eloqüente da irreformabilidade do sistema; e a crise estrutural profunda, com seus perigos para a sobrevivência da humanidade, destaca de maneira aguda sua incontrolabilidade. Na verdade, é inconcebível introduzir as mudanças fundamentais requeridas para remediar a situação sem superar o antagonismo estrutural destrutivo, tanto no “microcosmo” reprodutivo, como no “macrocosmo” do sistema do capital enquanto um modo global de controle do metabolismo social. E isso só pode ser atingido colocando em seu lugar uma forma radicalmente diferente de reprodução do metabolismo social, orientada para o redimensionamento qualitativo e a crescente satisfação das necessidades humanas; um modo de intercâmbio humano controlado não por um conjunto de determinações materiais fetichizadas mas pelos próprios produtores associados.
O sistema do capital é caracterizado por uma tripla fratura entre 1) produção e seu controle; 2) produção e consumo; e 3) produção e circulação de produtos (interna e internacional). O resultado é um irremediável sistema“centrífugo”, no qual as partes conflituosas e internamente antagônicas pressionam em muitos sentidos diferentes. No passado, em teorias formuladas do ponto de vista do capital, os remédios para a dimensão coesiva perdida eram, em seu conjunto, desejos conceitualizados. Primeiramente por Adam Smith, como “a mão invisível” a qual, obrigatoriamente tornaria as intervenções políticas do Estado e seus políticos — explicitamente condenada por Smith como extremamente prejudicial — completamente supérflua. Posteriormente, Kant ofereceu uma variante do “Espírito Comercial” de Adam Smith, defendendo a realização da “política moral” e (um tanto ingenuamente) esperando da ação do “Espírito Comercial” não apenas benefícios econômicos universalmente difundidos como, também, um politicamente louvável reino de “paz perpétua” no quadro de uma harmoniosa “Liga das Nações”. Mais adiante, no ápice dessa linha de pensamento, Hegel introduziu a idéia da “astúcia da Razão”, atribuindo a ela o desempenho de uma função muito parecida à “mão invisível” de Adam Smith. Entretanto, em completo contraste com Adam Smith — e refletindo a situação muito mais dilacerada pelos conflitos de seu próprio tempo — Hegel atribuiu ao Estado nacional, diretamente, o papel totalizante/universalista da Razão nos assuntos humanos, desdenhando a crença de Kant em um reino vindouro de “paz perpétua”. Também insistiu em que “o Universal é encontrado no Estado, em suas leis, suas disposições universais e racionais. O Estado é a Idéia Divina tal qual existe sobre a Terra”,[6] já que, no mundo moderno, “o Estado, como imagem e atualidade da Razão, tornou-se objetivo”.[7] Então, até mesmo os grandes pensadores que conceitualizaram estes problemas do ponto de vista do capital, puderam oferecer, somente, algumas soluções idealizadas das contradições subjacentes — isto é, para a tripla fratura, em última análise irreparável, mencionada acima. Contudo, eles reconhecerem, pelo menos por inferência, a existência dessas contradições, ao contrário dos atuais apologistas do capital — como os representantes da “Direita Radical”, por exemplo — que nunca admitiram a existência de qualquer necessidade de cura substantiva em seu acalentado sistema.
Dadas as contradições centrífugas internas de suas partes constitutivas, o sistema do capital somente poderia encontrar uma dimensão coesiva muito problemática na forma de suas formações nacionais estatais. Estas corporificam a estrutura de poder do capital, o qual provou-se adequado ao seu papel através da ascendência histórica do sistema. Entretanto, o fato de que essa dimensão coesiva corretiva seja historicamente articulada na forma de estados nacionais, que estão longe de ser mutuamente benevolentes e harmoniosos, sem qualquer desejo de conformar-se ao imperativo kantiano de uma “paz perpétua” vindoura, significava que o Estado, em sua realidade, está, na verdade, “infectado pela contingência”[8] de várias maneiras. Primeiro, porque as forças de destruição à disposição da guerra moderna tornaram-se absolutamente proibitivas, destituindo, dessa maneira, os estados nacionais de suas armas definitivas para solucionar os antagonismos internacionais mais abrangentes sob a forma de outra guerra mundial. Segundo, porque o fim da ascendência histórica do capital colocou em primeiro plano o desperdício e destrutividade irracional do sistema no nível da produção,[9] intensificando, assim, a necessidade de garantir novos escoadouros para os produtos do capital através da dominação hegemônica/imperialista sob condições nas quais o modo tradicional de impô-la não pode mais ser considerado uma opção rapidamente disponível; não somente por razões estritamente militares mas, também, devido ao avassalador potencial nelas contido quanto a uma guerra comercial global. E terceiro, porque a contradição, até há pouco velada, entre o irrefreável impulso expansionista do capital (tendendo a uma integração global completa) e suas formações estatais historicamente articuladas — como estados nacionais concorrentes — afloram abertamente, destacando não apenas a destrutividade do sistema, como também sua incontrolabilidade. Não espanta, portanto, que o fim da ascendência histórica do capital no século XX traga consigo a crise profunda de todas as suas formações estatais conhecidas.
Atualmente, vemos ser oferecida a varinha mágica da globalizaçãocomo uma solução automática para todos os problemas e contradições enfrentados. Esta solução é apresentada como uma novidade completa, como se a questão da globalização aparecesse no horizonte histórico somente há uma ou duas décadas com sua promessa de bondade universal, ao lado da outrora igualmente saudada e reverenciada noção da “mão invisível”. Mas, na realidade, o sistema do capital moveu-se inexoravelmente em direção à “globalização” desde seu início. Devido à irrefreabilidade de suas partes constitutivas, ele não pode considerar-se completamente realizado a não ser como um sistema global totalmente abrangente. É por essa razão que o capital procurou demolir todos os obstáculos que permaneciam no caminho de sua plena expansão e porque ele deve continuar a fazê-lo enquanto o sistema perdurar.
É aqui que uma grande contradição torna-se claramente visível. Por que, enquanto o capital em sua articulação produtiva — atualmente através, principalmente, da ação de gigantescas corporações nacionais-transnacionais — tende a uma integração global (e, nesse sentido, verdadeira e substantivamente à globalização), a configuração vital do “capital social total” ou “capital global” é, hoje em dia, completamente desprovida de sua própria formação estatal. Isto é o que contradiz nitidamente a determinação intrínseca do próprio sistema como inexoravelmente global e desenfreado. Assim, o perdido “Estado do sistema do capital” como tal, demonstra a incapacidade do capital para atingir a lógica objetiva da irrefreabilidade do sistema em suas últimas conseqüências. É esta circunstância que deve colocar as expectativas otimistas de “globalização” sob a sombra de sua deplorável falência, sem remover, entretanto, o próprio problema — nomeadamente, a necessidade de uma verdadeira integração global dos intercâmbios reprodutivos da humanidade — para o qual somente uma solução socialista pode ser considerada. Pois, sem uma solução socialista, os necessariamente crescentes antagonismos fatais e confrontos hegemônicos pelos mercados exigidos entre principais poderes concorrentes — como, por exemplo, para tomar apenas um, dentro de duas ou três décadas a economia chinesa (mesmo a sua presente taxa de crescimento) deverá ultrapassar largamente a força econômica dos Estados Unidos, com um potencial militar para lhes fazer frente — pode resultar, apenas, em uma catastrófica ameaça à sobrevivência da humanidade.
A crise estrutural do capital é a séria manifestação do encontro do sistema com seus próprios limites intrínsecos. A adaptabilidade deste modo de controle do metabolismo social pode ir tão longe quanto a “ajuda externa” compatível com suas determinações sistemáticas permita fazê-lo. O próprio fato de que a necessidade desta “ajuda externa” aflore — e, apesar de toda a mitologia em contrário, continue a crescer durante todo o século XX — foi sempre um indicativo de que algo diferente da normalidade da extração e apropriação econômica do sobretrabalho pelo capital tinha que ser introduzido para conter as graves “disfunções” do sistema. E, durante a maior parte de nosso século, o capital pôde tolerar as doses do remédio ministradas e nos poucos “países capitalistas avançados” — mas somente neles — pôde até mesmo celebrar a fase mais obviamente bem sucedida de expansão do desenvolvimento durante o intervencionismo estatal keynesiano das décadas do pós-guerra.
A severidade da crise estruturaldo sistema do capital confronta os socialistas com um grande desafio estratégico, oferecendo, ao mesmo tempo, algumas novas possibilidades vitais para enfrentá-lo. O que precisa ser destacado aqui é que não importa quão abundantes ou variadas sejam as formas de “ajuda externa” no século XX — bem diferente das fases iniciais do desenvolvimento capitalista, quando a política absolutista de “ajuda externa” (como apontado por Marx com referência a Henry VIII e outros) foi instrumental, ao invés de vital, para estabelecer a normalidade do capital e seu funcionamento saudável como um sistema global — toda esta ajuda, ajuda, em seu tempo, provou ser insuficiente para o objetivo de garantir a permanente estabilidade e a inquestionável vitalidade do sistema. Exatamente ao contrário. Pois as intervenções estatais do século XX puderam somente intensificar a “hibridização” do capital como um sistema social reprodutivo, acumulando, desse modo, problemas para o futuro. Em nosso futuro, a crise estrutural do capital — afirmando-se a si própria como a insuficiência crôni- ca de “ajuda externa” no presente estágio de desenvolvimento — deverá tornar-se mais profunda. E, também, deverá reverberar através do planeta, até mesmo nos mais remotos cantos do mundo, afetando cada aspecto da vida, desde as dimensões reprodutivas diretamente materiais às mais mediadas dimensões intelectuais e culturais.
Certamente, uma mudança historicamente viável somente pode ser verdadeiramente epocal, colocando a tarefa de ir além do próprio capitalcomo um modo de controle do metabolismo social. Isso significa um movimento de magnitude muito maior do que a substituição do sistema feudal pela subordinação hierárquico-estrutural de qualquer força de controle externo; em oposição à simples mudança da forma histórica específica sob a qual a extração e apropriação de sobretrabalho foi perpetuada, como sempre aconteceu no passado.
As “personificações do capital” podem assumir formas muito diferentes, desde a variedade capitalista privada à atual teocracia, e dos ideólogos e políticos da “Direita Radical” a partidos e burocratas estatais pós-capitalistas. Eles, inclusive, podem se apresentar como travestis políticos, assumindo a roupagem do “Novo Trabalhismo” (como faz o atual governo da Inglaterra, por exemplo) para espalhar mais facilmente mistificação no interesse da continuação da dominação do capital. Tudo isso, entretanto, não pode resolver a crise estrutural do sistema e a necessidade de superá-lo através da alternativa hegemônica do trabalho à ordem social metabólica do capital. É isto o que coloca na agenda histórica a tarefa da radical rearticulação do movimento socialista como um movimento de massas intransigente. Colocar um fim à separação do “braço industrial” do trabalho (os sindicatos) de seu “braço político” (os partidos tradicionais), que leva à impotência, e empreender uma ação direta politicamente consciente, em oposição à aceitação submissa das condições sempre piores, impostas aos produtores pelas regras pseudo-democráticas do jogo parlamentar, são os objetivos e movimentos transitórios que orientarão, necessariamente, um movimento socialista revitalizado no futuro previsível. A continua submissão ao curso globalmente destrutivo de desenvolvimento do capitalismo globalizado, verdadeiramente, não é uma opção.

Notas

[1]Este artigo corresponde à introdução escrita por Mészáros para a edição em farsi, publicada por exilados iranianos, de seu livro Beyond Capital (Além do capital, São Paulo, Boitempo, no prelo). O texto foi publicado, em inglês sob o título “The uncontrollability of globalizing capital” (Monthly Review, fev. 1998). Tradução Alvaro Bianchi, revisão técnica Waldo Mermelstein.
[2] Karl Marx, Grundrisse, Harmondsworth, Penguin, 1973, p. 278.
[3] Principalmente pela superação da proibição da compra e venda de terra e trabalho, garantindo, dessa forma, o triunfo da alienação em todos os domínios.
[4] Muitos sobrevivem (se o fazem), exatamente “fechando a boca” na “economia tradicional” e
o número daqueles que permanecem completamente marginalizados, mesmo se desejando ainda — na maioria das vezes em vão — um emprego de qualquer tipo no sistema capitalista, está quase além do entendimento. Portanto, “enquanto o número total de pessoas desempregadas registradas pelas agências de emprego atingiu 336 milhões, em 1993, o número de pessoas empregadas, no mesmo ano, de acordo com a Comissão de Planejamento, atingiu somente 307,6 milhões, o que significa que o número de desempregados registrados é maior do que o número de pessoas empregadas. E a taxa de incremento percentual do emprego é praticamente desprezível”. Sem Sukomal, Working class of india: History of the emergence and movement 1830-1990, with na overwiew up to 1995, Calcuta, K.P. Bagchi & Co, 1997, p. 554.
[5] A crise crônica de acumulação, enquanto um problema estrutural grave, foi iluminada, em várias ocasiões, por Paul Swezzy e Harry Magdoff.
[6] Georg Hegel, The Philosophy of History, New York, Dover, 1956, p. 39.
[7] Idem, p. 223.
[8] Idem, p. 214.
[9] Schumpeter costumava louvar o capitalismo — de maneira um tanto autocomplacente — como uma ordem reprodutiva de “destruição produtiva”; hoje seria muito mais correto caracterizálo como um sempre crescente sistema de “produção destrutiva”.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Álcool mata mais que Aids, violência e tuberculose, segundo OMS

O uso abusivo do álcool provoca 2,5 milhões de mortes por ano

AE
Quase 4% de todas as mortes no mundo são atribuídas ao álcool, alertou a Organização Mundial de Saúde (OMS) em relatório divulgado nesta sexta-feira (11). A entidade da Organização das Nações Unidas (ONU) lembrou que o álcool é associado com muitas questões sociais sérias, como violência, negligência infantil e abusos, além de faltas ao trabalho. A porcentagem de mortes por álcool é maior do que as de mortes causadas por Aids, violência e tuberculose, diz a OMS.
O relatório afirma que o uso abusivo do álcool provoca 2,5 milhões de mortes todos os anos. No grupo com idades entre 25 e 39 anos, 320 mil pessoas morrem por problemas relacionados ao álcool, resultando em 9% das mortes nessa faixa etária. A OMS informou ainda que o álcool prejudica a vida não somente de quem o consome em excesso, mas também dos que se relacionam com essas pessoas. "Uma pessoa intoxicada pode prejudicar outras ou colocá-las em risco de acidentes de trânsito ou por comportamento violento, ou afetar negativamente colegas de trabalho, parentes e desconhecidos", afirma o texto.
A bebida em excesso é um importante fator para problemas psiquiátricos, em males como a epilepsia, e de doenças cardiovasculares, cirrose e vários tipos de câncer. "Ferimentos fatais atribuíveis ao consumo de álcool tendem a ocorrer em faixas etárias relativamente mais jovens", afirma.
O relatório global 2011 sobre álcool e saúde da OMS busca fornecer informações para os Estados vinculados à entidade e apoiar os esforços para se reduzir os danos do álcool, dando atenção para as consequências sociais e de saúde do consumo abusivo da bebida. A OMS lembra que o grau de risco para o consumo de álcool varia conforme a idade, o sexo e outras características biológicas do consumidor. É preciso observar, segundo a entidade, a quantidade de álcool consumido, mas também o padrão de consumo da pessoa em questão.
A OMS recomenda que os governos regulem o mercado de venda de bebidas, em particular para pessoas mais jovens. Também sugere regulações e restrições à disponibilidade do álcool, políticas apropriadas para se evitar que motoristas dirijam bêbados e a redução da demanda, com impostos mais altos. Afirma ainda que é preciso que os governos forneçam tratamento para pessoas com problemas com o álcool e implementem programas e intervenções breves diante do uso perigoso e prejudicial da bebida. A íntegra do relatório está disponível no site da OMS, em inglês (http://www.who.int).

fonte: http://noticias.uol.com.br/ultnot/cienciaesaude